19 Agosto 2008

A cada segundo da minha existência




Querer falar-te em gestos, mais do que em palavras,

do arrufar infatigável da saudade no meu peito

em dias uns iguais aos outros, de monotonia imperturbável,

nos lugares a sós onde o teu toque ausente ocupa todos os meus sentidos.

Porque nestas horas em que não te falo, o meu pensamento voa até ti

como as ondas na constância nítida das marés,

e toda eu sou sal por dentro,

em amor e nostalgia.



photo: haleh bryan



01 Abril 2008

sem fim


Hoje

Quis escrever-te palavras harmoniosas,

Tão bonitas como o que sinto,

Tão apetecíveis como tu,

Tão sublimes como o sonho que te abraça

E me preenche.

Lancei o meu espírito ao vento,

Qual barco à vela num mar multicolor,

Rumo ao horizonte onde resplandeces.

Senti-me extasiada com a visão,

Ansiosa, por antecipação,

Incrédula, pela possibilidade,

Devota, com uma fé inabalável,

Feliz, pela memória que trago

do tanto que me fizeste sentir já,

Num tão curto espaço de tempo,

Como um nevão inesperado

que se deita sobre um vale,

Cobrindo tudo de um branco imaculado,

Criando uma paisagem nova,

De onde só brotam as sementes mais resistentes,

E os desejos mais firmes.

De onde nasce uma nova vida,

Frondosa e sagaz,

Que se espalha, infatigável,

Pelo mundo que espera

A conquista inevitável do amor

Que nos enriquece e alimenta

Todos os dias.




03 Março 2008

cronónimo



O desfilar incerto de números

que se vão acotovelando numa calçada temporal,

sempre prontos a vestir memórias.

Números de semblante domingueiro,

aos quais deixei de conseguir dar suma importância,

pelo ócio e negligência que foram introduzindo

nos percursos debotados que tracei a dois.

Primeiro, atravessei-os

com aparente indiferença.

Depois, comecei a ignorá-los

sem nunca os conseguir esquecer.

Até perderem a capacidade de se evidenciar

no arrancar das folhas dos calendários que não uso.

De repente, surgiste tu, a dizeres-me de ti.

Espelho difuso da minha alma.

Reflexo de tudo o que pretendi esquecer de mim mesma.

Despiste-me a noite.

Vestiste-me o dia.

Preencheste os espaços que não identificava vazios.

O consentimento mudo e mútuo

de um amor por desabrochar, encoberto.

Dei-me, sem me aperceber,

novamente aos números.

Mais ainda a ti.

Guardei todos os pedacinhos datados

do que fomos espalhando pelo quotidiano.

Algarismos em sensações.

Sensações em haste e estirpe.

Raízes que rasgam a terra onde se fundaram,

palmilhando impetuosamente terrenos desconhecidos.

Paraíso em bruto,

foi o que descobri.

Contíguos os desejos,

as imagens de infinitas possibilidades.

Pensamentos em molde de alianças.

Sonhos de configurações juvenis.

Os nossos filhos.

A nossa casa.

A vida em sobressaltos de cores primaveris

e tempestades tropicais.

O espanto e a novidade de me saber tão longe tão cedo,

tão dentro e tão além, tão eu em nós,

com todas as expectativas que recusei

ao longo de uma eternidade à qual não pertencias

…ainda.

25 Fevereiro 2008

hoje

A minha visão nem sempre é tão nítida como a de um girassol. Nem tão perfeita como os contornos do teu corpo. Os meus olhos, como eu, são inacabados. São olhos que se ofuscam perante a luminosidade que irradias em momentos de fusão.
O meu toque não é tão leve como um sopro. Nem tão pesado que não se levante e paire sobre a essência do caminho a percorrer, ainda. Braços em grua, que procuram erguer sobre a tua pele a permanência.
O meu paladar não é tão apurado como o de um provador de vinhos, nem tão ténue como o de uma gripe. Distingue, no entanto, todos os teus sabores, mesmo na ausência deles.
O meu olfacto... bem, esse, é o de um animal irracional, incontrolável e certeiro. Absorção inevitável de tudo o que se cola à pele. Cheiras-me a Casa. Aquela onde te encontras, meu único e indubitável porto de abrigo.
A minha audição é a mais falível de todos os sentidos. Porque nem sempre te ouço com os ouvidos de dentro. Falho. Escorrego. Caio. Magoo-me. Fujo. Não deixes de insistir, nem desistas de mim, por isso. Falta-me o amor a mim própria para que não me deixe enganar estupidamente perante as provas que me colocas.

Hoje, meu amor, hoje, precisava de ti por um mero instante de partilha, de empatia rara, de entendimento mútuo. Porque (re)nasço. Porque me faz sentido este querer(-te) para além de tudo e de todos.

Sou o teu berço e o teu túmulo. A vida para lá de tudo. A morte a cada instante de dor. Tudo o que sempre quiseste e tudo o que sempre odiaste. O mundo que é o teu. Eu.

Tu... a minha Vida. Mesmo quando choro. Como hoje.

09 Janeiro 2008

solstício

Fazer amor contigo é música. O som é o das ondas do teu corpo e o das raízes da tua voz a crescer. Sons do Mar e da Terra. Em ti. Depois o silêncio. A elevação. Subo à doçura de uma nuvem com o teu rosto. Sonho dentro dos teus olhos. E novamente as forças da Natureza. Beijo-te. Línguas quentes de cheiros. Línguas escritas que se engolem, se alucinam e que imprimem nas peles pungentes a humidade das palavras. Dedilho coisas indecifráveis pelas ruas do teu corpo. Sei-te pelo tacto. E chamo-te para me saber viva. Tu vens e arrebatas-me. A minha ebriedade é a da sede e a da chama. Amo-te na invisibilidade das coisas, na ruptura das minhas forças, no etéreo espaço imaculado ao expoente máximo da loucura. Amo-te em total abandono. Concretizá-lo é música. Volto aos sons.




photo: Ariels Wipeout by groundlingchild


14 Novembro 2007

passagem



O doce sabor do ópio da pele.

Abres a boca, e ofereces-me mil mundos novos.

Hoje não consegui fazer nada senão pensar, e isso já parece tanto. Demais, até.
Haverá alguma razão para o horário laboral ser o pano de fundo mais propício a isto?

O cenário mais apropriado a solilóquios ardidos e renascidos das cinzas?

Quero carne, suor, lágrimas…talvez até sangue. Obscenidades faustosas.
Quero uma dose de álcool, porque dificilmente haverá beleza como a dos sentimentos embriagados.
Quero morrer de madrugada, afogada em volúpia. Ao teu lado.





photo: The Opium Wars2 by AmorouslyFading

09 Setembro 2007

era uma vez...



Chama-me, com uma voz de comando irresistível, uma grande e longa viagem...

...a de dentro.



Que os ventos e as marés me devolvam à praia à qual pertenço.



Até lá, fica este silêncio
de nuvens brancas de algodão doce,
que não desejo nem curto, nem longo,
mas livre de permanecer e partir quando quiser.

Assim como todos os seres e todas as coisas com asas.



...para sempre

04 Setembro 2007

fonte

Penso em ti.

Por dentro do ímpeto da caça desenfreada que me move, do quente adocicado do leite que me deste a beber, fui criança à descoberta. De memória em punho gravei na pedra do caminho o singular momento da tua entrega, tão natural e inevitável. No leito improvisado do desejo agarraste-me com a força de um náufrago, como se me pedisses que não mais te largasse. Já sei o que vais dizer: “É o reflexo espontâneo do orgasmo. E sexo é sexo.” Vital e necessário a tanta gente. Mas não foi o que o teu corpo me gritou, não foi esse o som no encaixe. Imperceptível e menos breve, a melodia dos teus sentidos em exercício de relaxamento.

Não recordo o teu cheiro, embora tenha ficado preso a mim vários dias. Dias que se diluíram como o teu gosto na minha boca. No rastro delével do teu cosmos, quis-te outra vez. Estrela cadente de substância secreta. Representaste o papel desnecessário de objecto inconquistável. A luta que impões amplia-te a avidez na vertigem de um auto-controlo excessivo. Pretendes com isso segurar a vontade alheia. Mas a minha escorregou-te, caiu ao chão e partiu-se. O meu querer não perdurou. Não eras casa que eu habitasse. Então, ensaiei a partida. Tu intuíste que a noite de estreia se avizinhava e antecipaste-a.

Não sei se te agradeça ou te guarde, mas apetece-me dizer-te que o nosso reencontro será intenso e o sexo violento, e que no dia seguinte terei a marca dos teus dentes nos meus lábios. Porque nós repetimos sempre os trilhos que se cruzam. E tu és a presa cabal da tua própria natureza predadora.

Terás ainda o leite, fonte de vida, espesso e revigorante para me dar a beber, ou apenas o sangue cálido que se verte ainda dessa chaga aberta?



photo Spilt Milk by Norrin Radd



24 Agosto 2007

.. ....



"Estou doente
Perfeitamente doente
Privaste-me de todos os meus cantos
Esvaziaste-me de todas as minhas palavras
Portanto, eu tenho o talento
Rente à tua pele
Este amor mata-me
Se continuar
Irei falecer a sós comigo
Junto ao meu rádio
Como uma menina idiota
Escutando a minha própria voz que cantará...
Estou doente
Completamente doente"


A música, por vezes, é o grito que calamos e que precisa de se soltar,
mesmo que no silêncio pingado, de olhos fechados.






photo dance by scottchurch

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