O desfilar incerto de números
que se vão acotovelando numa calçada temporal,
sempre prontos a vestir memórias.
Números de semblante domingueiro,
aos quais deixei de conseguir dar suma importância,
pelo ócio e negligência que foram introduzindo
nos percursos debotados que tracei a dois.
Primeiro, atravessei-os
com aparente indiferença.
Depois, comecei a ignorá-los
sem nunca os conseguir esquecer.
Até perderem a capacidade de se evidenciar
no arrancar das folhas dos calendários que não uso.
De repente, surgiste tu, a dizeres-me de ti.
Espelho difuso da minha alma.
Reflexo de tudo o que pretendi esquecer de mim mesma.
Despiste-me a noite.
Vestiste-me o dia.
Preencheste os espaços que não identificava vazios.
O consentimento mudo e mútuo
de um amor por desabrochar, encoberto.
Dei-me, sem me aperceber,
novamente aos números.
Mais ainda a ti.
Guardei todos os pedacinhos datados
do que fomos espalhando pelo quotidiano.
Algarismos em sensações.
Sensações em haste e estirpe.
Raízes que rasgam a terra onde se fundaram,
palmilhando impetuosamente terrenos desconhecidos.
Paraíso em bruto,
foi o que descobri.
Contíguos os desejos,
as imagens de infinitas possibilidades.
Pensamentos em molde de alianças.
Sonhos de configurações juvenis.
Os nossos filhos.
A nossa casa.
A vida em sobressaltos de cores primaveris
e tempestades tropicais.
O espanto e a novidade de me saber tão longe tão cedo,
tão dentro e tão além, tão eu em nós,
com todas as expectativas que recusei
ao longo de uma eternidade à qual não pertencias
…ainda.